Nutrição

Crónica. Mau feitio: verdade ou consequência?

Se dar um murro na mesa em situações limite nos estimula a seguir em frente, viver permanente irritadas com tudo e com todos é sinal de um fígado demasiado tenso. Apanhe a onda da primavera e transforme a tensão em energia criativa.

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Crónica. Mau feitio: verdade ou consequência? Crónica. Mau feitio: verdade ou consequência?
© Shutterstock
Paula Azevedo, cronista
Escrito por
Mar. 30, 2021

Se a força do seu mau feitio tende a piorar nesta altura do ano, primeiro, saiba que não está sozinha; segundo, que também isso tem resolução.

Já alguma vez ouviu a expressão idiomática ‘maus fígados’? Na gíria diz-se: “tal pessoa tem ‘maus fígados’”, querendo dizer que estamos perante alguém de caracter impaciente, que se zanga com todos e se irrita com tudo. E se algum episódio a surpreende num dia de maior tensão, pode mesmo dar-se o caso de reagir explosivamente sem conseguir ver mais nada à frente.

O que se passou? A tensão interna subiu de tal maneira que a deixou ‘cega de raiva’ – outra expressão idiomática – disparando esse excesso para fora; frequentemente, o bom senso regressa quando a energia baixa e finalmente se acalma.

Visão turva, impaciência e zanga como sintomas de um fígado demasiado tenso  

Estas singularidades da língua portuguesa, que subsistem ao passar dos tempos, representam, na sua simplicidade, uma sofisticada maneira de olhar o corpo e para a forma como nos expressamos na vida, sugerindo que a saúde dos nossos órgãos não se encontra separada da capacidade dos nossos sentidos, emoções e comportamentos.

Este é um dos pontos de partida da medicina oriental, que não só vê uma interação entre o corpo e a mente, como não os separa da Natureza, onde estações e alimento lhes marcam o ritmo.

Desta forma, um fígado e uma vesícula que funcionem sem problemas estimulam a aptidão de vivermos bem com o tempo – ganhámos, por isso, paciência -, que se faz acompanhar de uma vontade de nos desenvolvermos e crescer.

Sobre a condição do seu par fígado/vesícula, pergunte-se:

  • Como estão os olhos, a minha visão, inflamações, alergias, tiques? E como está a minha capacidade de visionar o futuro? O meu espírito de iniciativa e criatividade?
  • Acordo cedo e levanto-me da cama com vitalidade ou acordo cansada e rabugenta?
  • Como estão os meus tendões? Sinto dor nas articulações ou mexo-me com fluidez e flexibilidade?
  • Tomo decisões com facilidade ou não sei o que fazer perante as escolhas do dia a dia?
  • Apenas reajo e trabalho sob pressão?
  • Sinto dores de cabeça constantemente? Dores menstruais e TPM? Como estão os meus intestinos?
  • Sinto uma atração pelo sabor ácido ou não o suporto?

Mais tensa e irritada quando chega a primavera. Porquê?

Com a chegada da primavera os dias alongam-se e a temperatura aumenta. A energia sobe, é rápida e matutina, e, tal como as árvores se enchem de vida, de altura, de folhas e de flores, também nós – estimulados pelo tónus fígado/vesícula – nos sentimos mais leves e descontraídas, com vontade de nos mexermos mais, de sair, de florescer e de fazermos coisas novas.

Segundo a medicina oriental, o fígado é governado por essa energia ascendente e expansiva, chamada de ‘força da terra’, potenciada nessa altura do ano.

Assim, se estivermos sintonizadas, a primavera impulsiona-nos, mas se estivermos em desequilíbrio, por excesso ou por insuficiência, podemos ver também exacerbados esses sintomas.

Fatores que podem destabilizar o equilíbrio do fígado/vesicula

  • Falta de oxigenação e de movimento: vida sedentária e respiração deficiente;
  • Viver constantemente em stresse, com pressa, em risco e em ambientes competitivos;
  • Dificuldade em concretizar ideias e ideais;
  • Comer demasiado às refeições e comer antes de ir para a cama;
  • Refeições frequentemente reaquecidas, comida muito seca ou queimada, falta de frescura;
  • Excesso de exposição a poluição, radiação e produtos químicos;
  • Excesso de ingestão de produtos animais, especialmente carne, peixes gordos e lacticínios. Se o grau de tensão for elevado e as dores menstruais fortes, vale a pena olhar para a quantidade de ovos que costuma consumir;
  • Açúcar refinado, excesso de álcool, de gorduras animais e de óleos de fraca qualidade.
Uma vida demasiado stressada, repetitiva e combativa pode stressar o fígado, que se expressa por meio da nossa irritabilidade
Paula Azevedo Paula Azevedo

Spring cleaning

Sempre que se sentir em modo contracorrente, abrande e comece a limpar. As limpezas e desintoxicações ganham especial significado nesta época do ano.

O movimento é o de sacudir os excessos que já não lhe fazem falta, e se as famosas spring cleaning praticadas pelo mundo inteiro cuidam do que nos rodeia, despejando gavetas, papelada, ficheiros e tralha, o mesmo exercício se aplica ao corpo, livrando-o dos excessos acumulados no frio do inverno. Tensão a mais, peso a mais, gordura a mais, toxinas a mais, tarefas a mais.

Ponha o sangue novo a circular e recupere o seu bom humor:

Aprenda a respirar melhor. Se estiver muito tensa, dê enfase à inspiração;

Esbanje movimento pelo corpo. Mexa-se com vigor, fazendo uso das suas articulações: joelhos, cotovelos, ombros, ancas, mãos e pés. Junte-lhe esta prática para melhores resultados.

Um verdadeiro boost nesta altura do ano passa por acordar cedo e deitar-se cedo. Experimente ir para a cama antes das 23h (altura em que o fígado ativa a desintoxicação) e jantar duas a três horas antes de dormir;

Coma menos e mastigue mais;

Vá para o campo. Rodeie-se de árvores com mais frequência e ande descalça;

Aposte em alimentos frescos e preparados na hora. Privilegie alimentos de origem vegetal: cereais (arroz, cevada, aveia, bulgur, massas…), feijões, lentilhas, legumes e vegetais;

Troque os pratos de forno, os mais salgados, mais fumados e os longos cozinhados, por preparações mais suaves e frescas como estufados rápidos, salteados, escaldados, prensados e vapor;

As hortaliças, ramas de raízes, alho francês, cebolinho, rábano, nabo e rabanete ganham créditos nesta estação, assim como as sopas, chás e saladas feitas com a cevada integral, que são ótimas para potenciar o movimento e a descarga de gorduras acumuladas no corpo. Recupere a couve fermentada, ácida e ligeiramente salgada nesta estação;

Se a sua vesícula biliar tende a ser muito sensível ao azeite, experimente cozinhar com óleos feitos a partir de sementes, biológicos e de extração a frio, e fique atenta à descida dos seus níveis de irritabilidade. Se necessário, reduza substancialmente o consumo de gordura, especialmente quando utlizada a cru;

Se o caso for sério e o seu espírito experimental: durante uns dias troque o pequeno-almoço por duas colheres de sopa de nabo ralado com uma ou duas gotas de molho de soja – de boa qualidade, claro. Os resultados são incríveis. No entanto, se esta sugestão lhe parecer demasiado ascética, tome um pequeno-almoço mais ligeiro e inclua o preparado de nabo cru e ralado com soyu às refeições.

Uma vida demasiado stressada, repetitiva e combativa pode stressar o fígado, que se expressa por meio da nossa irritabilidade. Em contrapartida, um fígado demasiado tenso – fruto, por exemplo, de uma alimentação mais rica em animais e falta de frescura – também poderá ter um efeito stressante na nossa forma de estar.

Sabemos sempre o que precisamos de fazer a mais ou fazer a menos para nos equilibrarmos, não concorda? Apaziguando as causas que perturbam o funcionamento do nosso organismo, que é sábio, a limpeza do corpo é automática e a nossa flexibilidade regressa. Sentimo-nos gradualmente mais leves e disponíveis para avançar e para crescer.

Siga o impulso da primavera e transforme a sua tensão em energia criativa!

Paula Azevedo é consultora, professora e chef de Macrobiótica. Para mais informações, contactar através do e-mail p.narciso.azevedo@gmail.com.

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